Teletrabalho “forever”?

25.05.2020 às 8h36

Penso que é justo começar por reconhecer que muitos, muitos mesmo, foram os trabalhadores que todos os dias saíram de casa quando se pedia que ficassem confinados. Foram pessoas que, fruto das funções que exercem, não tinham alternativa e saíram para permitir que o país continuasse a funcionar, permitindo que aspectos básicos e vitais das nossas vidas não fossem postos em causa, desde a alimentação até à eletricidade e telecomunicações, sem esquecer o vital Serviço Nacional de Saúde.

Muitos outros, proibidos de abrir os seus negócios, viram os seus estabelecimentos fechados por decreto, por forma a contrariar a curva ascendente da pandemia. Sem clientes, sem espaço para vender os seus produtos e serviços, vivem situações críticas, em vários casos ainda não começou a contabilização, estando muito perto da insolvência.

Foi aqui que entrou o lay-off, que de simplificado teve muito pouco. Quatro versões. Mas, descontando a dificuldade de encontrar uma forma final, dada a situação tão excepcional, o Estado precisava de dizer presente numa fase destas. E não por caridade, mas por obrigação e por necessidade de conservar capacidade produtiva, que mais tempo demoraria a ser reposta, se fosse perdida em falência. Reparem que os trabalhadores portugueses descontam perto de 5 salários por ano para a Segurança Social. Este número, é uma rede de apoio. Sim, existe a questão da intergeracionalidade, mas também choca que um Estado, dito Social, não consiga garantir 100% de vencimentos durante dois ou três meses. Não foi por acaso que questionei a Ministra da Segurança Social, na Conferência organizada pela Ordem dos Contabilistas Certificados, que tive oportunidade de moderar sobre a possibilidade de prolongar o lay-off. Obtive apenas a resposta de que está em estudo. É urgente obter essa resposta.

Do lay-off também fica a questão burocrática da transferência ocorrer para as empresas, em vez de directamente para os trabalhadores. São passos que atrasam e contam no cumprimento das responsabilidades assumidas pelos cidadãos. Dias. E dias ou semanas à espera da chegada de um vencimento é dramático. As pessoas têm contas para pagar, empréstimos de casa, água, luz, telecomunicações e a imprescindível comida.

Se por um lado esta situação dramática deveria ter tido outra celeridade, por outro lado, a situação de muitos trabalhadores, sobretudo no sector dos serviços, que conheceram de frente a realidade do Teletrabalho pode ter tido, por maus motivos, um efeito positivo para o futuro. Penso que, pela rapidez de implementação, quer no Estado, quer em muitas empresas, deste regime de prestação de trabalho, se provou que este sistema só não existia e era mais disseminado, nas organizações e nas entidades públicas, apenas por falta de vontade de quem manda.

A Alemanha, como aqui já referi na última semana, quer avançar com esta medida de forma permanente. O Twitter pensa em soluções de teletrabalho para sempre. São sinais de mudança. Sinais a que se juntam a decisão da Nova Zelândia, de pensar em semanas de trabalho de apenas 4 dias.

Tenho procurado insistir neste tema. O teletrabalho é uma solução natural num mundo que está ligado em rede. Não é nada de transcendente. Não é. Basta um telemóvel e um computador. E ligação à internet, claro está.

Esta situação permite um ganho de qualidade de vida às pessoas. Não é para isto que Governos e pessoas trabalham? Melhorar a nossa vida? Retirar a pressão da mobilidade, horas perdidas no trânsito ou apertados em transportes públicos, deslocações para ir um qualquer escritório ligar o computador é de um mundo do século passado. Os ganhos de produtividade são evidentes. Acordar e começar a trabalhar, estar sempre ligado, apesar da evidente necessidade de respeitar a vida privada das pessoas, mas acaba, não raras vezes, por ter menos interrupções e ser mais eficiente o trabalho assim desenvolvido. Era importante que muitas entidades públicas e privadas fizessem uma análise dos ganhos (ou não) que obtiveram na produtividade dos seus colaboradores.

A tudo isto, desde a qualidade de vida, ao impacto ambiental, juntamos a possibilidade de redução de custos para as entidades patronais. Custos de eletricidade, de materiais, de limpeza, de segurança, de água e de espaços.

Quantas empresas e entidades que ocupam prédios não poderiam reduzir os seus espaços e conseguir arrendar ou vender o que ficaria vazio? Faz sentido, nos tempos que correm, gabinetes enormes para uma pessoa estar sentada em frente ao computador? Ou fará mais sentido a existência de espaços de cowork, com salas de reunião, com regime de agendamento prévio?

São medidas tão simples, mas tão simples. Que precisam de vontade para que passam do papel à prática. Parece que a Ministra Alexandra Leitão quer alargar o teletrabalho para 25% dos funcionários públicos. Bom sinal. Que seja um incentivo para mais organizações e para abranger mais trabalhadores.

Todavia é preciso atenção, este modelo de organização do trabalho obriga a respeito entre trabalhador e entidade patronal. Nem abusos, nem laxismos. De todos. Trabalhadores e patrões. Liberdade, significa sempre responsabilidade. Até rima. E mais, a redução de custos por parte das entidades patronais, não deve ser acompanhada da perigosa tentação de redução de ordenados, sobretudo em questões como o subsídio de alimentação. Bem sei que a tentação existe, mas estes modelos significam apostar e reconhecer o que todas as Empresas e Serviços Públicos têm de mais valioso: os seus recursos humanos, as pessoas que fazem girar a engrenagem.