Vá para fora, cá dentro?

18.05.2020 às 8h19

Os próximos meses, depois de confinados em casa, serão cruciais para muitos sectores. No entanto, como o Verão está à porta, os meses de Junho, Julho e Agosto serão determinantes para o sector do Turismo em Portugal.

O turismo fez-nos subir as exportações e deu-nos preciosa liquidez em sectores como a restauração, comércio e hotelaria. Erámos, sem dúvida, um destino muito procurado, cada vez mais procurado. Os números assim o indicam. Estamos a falar de 27 milhões de hóspedes por ano. É muito, numa economia com a dimensão da nossa. Fez. Não faz. Basta olhar para os mais recentes dados do INE e perceber que em Março, e foram apenas 15 dias de confinamento, “o sector do alojamento turístico registou 697,7 mil hóspedes e 1,9 milhões de dormidas, correspondendo a variações de -62,3% e -58,7%, respetivamente”.

É dramático. Isto sim interessa discutir. Isto sim merece a atenção total dos nossos governantes. Não são as novelas políticas em torno de palavras dadas, mas raramente honradas ou pensar em eleições presidenciais.

Ora, se estamos confinados, cá e em muitos países, se temos medo de contágio, receio de contacto social e de tocar no que quer que seja, sem antes desinfectarmos profusamente, como vamos ter capacidade de atrair pessoas para voltarem aos restaurantes ou hotéis? Este é o ponto chave do futuro deste importante sector: a confiança.

Não vale a pena esconder, dizer palavras bonitas, apontar para vacas voadoras. Temos um problema interno brutal. Vivemos, anos a fio, com a aposta, com muitas fichas postas, no Turismo, como factor de subida do nosso PIB. Esta política nacional foi, até Fevereiro de 2020, uma aposta ganha. Não tenhamos medo das palavras. Estava a ser uma aposta ganha. Mas, e agora? E agora que essa aposta tem, à conta do confinamento das pessoas em todo o mundo, a falta de clientes no seu dia-a-dia? E agora como vamos fazer?

Os números que nos chegam da Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal apontam para que 30% dos hotéis e restaurantes admitam a falência como paragem mais próxima.

Isto é outro mundo. Isto é uma crise (não podemos chamar-lhe somente austeridade) que vamos ter de enfrentar com a certeza de que vai demorar até voltarmos a uma condição parecida com o que era a normalidade.

É tempo pois, de todos se readaptarem. O take-away, por exemplo, tem sido uma solução. Não chega, mas é um ponto de partida. Mas será fundamental que cada estabelecimento passe confiança para voltar a captar os seus clientes. A higiene, situação que em certos casos não era muito tida grande conta, deve ser a prioridade número um. Não há espaço para improvisos, nem para desleixos ou negligente deixa andar. A qualidade da higiene deve andar de braço dado com a qualidade do serviço prestado, nunca como hoje estiveram tão interligadas.

Como algarvio, estou preocupado, e muito, com o Verão deste ano. Como pode o Algarve sobreviver sem hóspedes? Como pode o Algarve ter futuro sem o turismo? E quem diz o Algarve, diz a Madeira, por exemplo.

Por isso, às vezes também importa voltar a campanhas passadas. O vá para fora, cá dentro, deve ser uma solução a apostar. Penso que é quase unânime, que os aviões, com custos bem elevados (veremos o futuro da TAP) vão ser um meio a usar mais para a frente, pelos receios óbvios. Por isso, resta-nos o turismo português, de português para português. E os portugueses podem e devem aproveitar para se conhecer melhor, através da viagem pelos magníficos, tantas vezes por nós ignorados, cantos e recantos do nosso país. E são tantos e tão interessantes. Quem conhece verdadeiramente o nosso país? Realmente? Quem já aproveitou de Norte a Sul as diferentes regiões do nosso país?

Está aqui uma oportunidade. Não é fácil. Sobretudo, não é fácil recuperar a confiança para voltar a sair, comer fora, fazer uma marcação e ir para um hotel ou uma pousada. E não é apenas na restauração e hotelaria que este clima existe. São muitos os estabelecimentos que começam a abrir, mas mesmo assim não conseguem captar novamente clientes. Que vivem situações de desespero. Sem auxílios do Estado. Muitos comerciantes a passar por necessidades.

Mas não podemos desistir do nosso futuro. Não podemos deixar que este país não tenha capacidade de dar a volta a uma situação grave como a que todos nós vivemos. Turismo interno, será sinónimo de crescimento do PIB. E qualquer incentivo será fundamental para mitigar a austeridade, perdão, a dificuldade que iremos sentir no futuro.

Vá para fora, cá dentro.