Obrigado aos empresários

04.05.2020 às 8h16

Passamos o tempo a ouvir reclamações, pedidos, clamores e reinvindicações. De todos os sectores. O pânico está instalado. As quedas nas vendas e nas receitas foram brutais. Os encargos mantêm-se, mas não entra dinheiro, a tesouraria está em erosão galopante. Esta condição, por mais imaginação que se tenha, dificulta a vida de qualquer empresa.

Todavia, também passamos o tempo a ouvir de uma determinada Esquerda (com um certo ar de gozo, diga-se), que agora é que querem ver os liberais, os que defendem o livre mercado, a pedir, de mão estendida, apoios ao Estado. Triunfo. Alcançaram o sonho deles. Ou talvez não, podem estar iludidos. E porquê? Porque o Estado existe, funciona e mantém-se com o dinheiro dos contribuintes. Pessoas e empresas. O Estado vive do que cobra em impostos, uns afirmam que esbulha, não vou tão longe. O Estado faz falta. Com conta, peso e medida. As empresas e os empresários também fazem muita falta.

Ser empresário, hoje em dia, independentemente da dimensão do seu negócio, é um desafio brutal. Abrir um negócio próprio, com o risco de cativar clientes, de arranjar mercado e nele se manter. Conseguir alcançar um produto ou serviço diferenciadores. Conseguir fazer previsões orçamentais e contratar pessoas. Pagar salários no fim do mês, com a forte carga fiscal que cada trabalhador acarreta à empresa. Sim, cada salário é muito mais do que o que vem descrito no recibo de vencimento ou no que chega líquido, o que conta na nossa carteira, à conta do trabalhador. Lidar com a burocracia do Estado. Pagar IRC, fazer o pagamento especial por conta, viver com as exigências da contabilidade e do Fisco, pensar em formas de modernizar o negócio, em se tornar mais rentável.

São muitas horas de vida que um empresário dedica ao seu sonho. Ao seu sustento. Ora, neste cenário que estamos a viver, com todas estas restrições e em confinamento geral, não podemos deixar de apoiar quem precisa. É aí que entra o Estado. Aí. Na rede de segurança. Não na mão estendida a subsídios a quem faz ou não faz. É nos momentos críticos que o nosso dinheiro deve ser repartido por quem precisa, para, lá mais à frente, voltarmos a viver a vida com a maior normalidade possível. As empresas fazem muita falta. Porque são as empresas que produzem os bens e prestam os serviços de que precisamos, que empregam as pessoas, que criam riqueza e fazem a roda da nossa economia girar. E o Estado sobreviver. Não há Estado sem empresas. Por isso, tirem as garras de fora no que a nacionalizações diz respeito. Podemos, pontualmente, apoiar empresas de grande dimensão e com interesses estratégicos evidentes para o país (avaliando bem e não deixando cêntimo por contar), mas não podemos entrar numa deriva anti-capitalista e anti-empresários.

Por isso temos de dizer obrigado. Obrigado a cada empresário que aguenta o seu negócio, mesmo com as portas fechadas. Obrigado aos empresários que, mesmo com o lay-off, pagam, como devem, a sua parte das remunerações dos seus colaboradores. E por falar em lay-off, depois de três ou quatro versões da lei, é inacreditável saber que o Estado recusou perto de 40% dos pedidos, muitos por questões meramente burocráticas, do tamanho do ficheiro em anexo, a dúvidas de IBAN da conta bancária. Bem sei que a pressão é enorme e o fluxo de pedidos gigante. Até para os serviços da Segurança Social. Mas a celeridade nestes processos, bem como a gestão de expectativas para cada trabalhador receber parte do seu vencimento, obrigam a uma gestão apertada, atempada e eficaz. É a vida das pessoas que está em causa.

E é bom não esquecer a proposta apresentada pelo Professor Joaquim Miranda Sarmento, de pagamento a fornecedores, tantas vezes desesperados com a demora do Estado a pagar o que já usou. Pelas contas poderiam ser pagas já, perto de 5 mil milhões de euros de dívidas em atraso. É dinheiro a entrar na nossa economia e que pode ser, nesta fase, um significativo balão de oxigénio.

Por isso, deixo o meu sincero e sentido agradecimento aos empresários deste país. Por não desistirem. Por continuarem a sonhar com um dia seguinte melhor. É com os empresários que se constrói um país, não com quem vive a sonhar e a desafiar Governos para “perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro”. Se muitos empresários não tivessem acumulado dinheiro, muitas mais empresas estariam fechadas, mais gente estaria no desemprego, mais subsídios de desemprego teriam de ser pagos e apenas restaria Estado, Estado e mais Estado. Não, não é por aí que se vai. Não é mesmo, pois todos sabemos como acabaram as economias de direcção central, muito mal…