Regressar a Porter

27.04.2020 às 8h14

Portugal, estando na União Europeia, nesta União, com os líderes de hoje, tem de ser solidário e proactivo numa fórmula comum de resposta a esta crise sanitária e económica, que estamos e vamos enfrentar, sem sabermos verdadeira noção da dimensão do desafio que nos aguarda. Ninguém se salva sozinho. É ponto assente.

Já nem vou pela temática da austeridade ou da óbvia necessidade de ter contas certas. Ela faz parte da nossa vida, seja qual for o nome com a quiserem mascarar, como Barack Obama uma vez disse “Podem colocar batom num porco, continua a ser um porco”.

Todavia, se por um lado, devemos pugnar na busca de uma solução europeia coordenada que permita salvar o que resta (ou o que vai sobrar) da nossa economia, por outro lado, não podemos viver num permanente estado de espera de respostas colectivas. Também podemos, sobretudo devemos, fazer o nosso trabalho de casa.

Êrnani Lopes, ex-ministro das Finanças de Mário Soares, um economista de grande conhecimento e capacidade de acção, preciosa no momento de crise que o país então viveu, que tive o privilégio de ter como Professor, ensinava que a História era a ciência mais exacta que existe. Ora, se é na História que devemos encontrar respostas, recordemos o que ela nos pode ensinar.

Relembro o economista Michael Porter. O Professor da Harvard Business School, com interesse nas áreas de Gestão e Economia. Autor de diversos livros sobre estratégias de competitividade, a quem Luís Mira Amaral, então ministro da Indústria do Governo de Aníbal Cavaco Silva, há mais de 25 anos, encomendou um estudo sobre a competitividade da economia portuguesa. Foi um estudo muito importante para a criação de uma estratégia industrial e de fomento da competitividade da economia nacional. Deu linhas de acção ao Governo de então e permitiu que um olhar isento e independente pensasse Portugal, sem a habitual tendência da capelinha ou do medo de criticar o que, para todos, é evidente, porém não se “lucra” a combater.

Agora, anos mais tarde, Mira Amaral sintetizou o que ficou e o impacto desse mesmo Relatório: “A aplicação do projeto Porter permitiu melhorias evidentes nos setores tradicionais como o calçado, têxtil, vestuário e confeções, nos vinhos e no mobiliário. Teve um impacto médio nas condições de procura, ou seja, a sofisticação da procura doméstica não aumentou muito. E teve um efeito baixo em todos os elementos de cooperação entre as empresas”.

25 anos depois do estudo de Porter, percebemos que é tempo de revisitar o mesmo, estudar, sem palas, a realidade existente e projectar os próximos 10 anos, isto é, se queremos ter crescimento sustentado, do tipo que nos permita mudar de vida.

Falo de repensar a nossa produtividade, melhorar o patamar de valor acrescentado das nossas indústrias, cujos casos de sucesso não são tão numerosos que nos permitam descolar. Os nossos subsídios e o modelo de apoios à actividade económica. Fazer uma verdadeira análise ao que o Estado dá e verificar se tem retorno. Sector por sector. O dar, pode ser em forma de subsídio ou em menor cobrança de impostos.

Temos também olharmos para a gestão do território, que vinha nesse relatório como um ponto fraco, e que continua a ser deficiente e sem planeamento, muito assimétrico, com uma macrocefalia, à volta de Lisboa e litoral, que tarda em ser mitigada.

Não há volta a dar. Portugal viveu, muito tempo, com a mão estendida para a Europa e ignorou a Balança Comercial, pensando que o Balança de Pagamentos não dava chatice, sendo a verdadeira medida do seu sucesso económico. Confesso que sempre olhei para as exportações como a solução viável, para não dizer a única, de uma pequena economia aberta como é a nossa. Continuo a achar o mesmo. Foi uma brutal evolução das exportações, que fruto da crise 2011, demonstrou os resultados da luta dos nossos empresários por ganhos em mercados externos, associada também ao turismo. E bem.

No entanto, com humildade, fruto da pandemia que enfrentamos, percebemos que não podemos viver apenas nesse modelo. Sobretudo, com a contínua necessidade de continuar a importar o que não conseguimos produzir. Com a internacionalização (ou a cedência) da nossa indústria e sem um mercado interno com alguma robustez. A ideia de que, quer em Portugal, quer na Europa, verdade seja dita, se pode dispensar certos sectores e deixá-los ao Deus dará das cadeias logísticas internacionais, normalmente com fim na China, colocam uma pressão enorme em momentos de crise, mormente do tipo da que vivemos. Pressão e reduzida capacidade de resposta.

É preciso ter um olhar isento e independente, sem dar espaço a pressões de sectores de actividade ou lobbies mais ou menos ambientais ou de certo tipo de interesses económicos. Projectar os próximos dez anos é fundamental, para começarmos já a preparar um futuro melhor. Isso sim seria patriótico. E já vamos tarde, o futuro não espera, particularmente por quem está preso ao modelo do passado.