Revolução comportamental

20.04.2020 às 8h22

Confinados que estamos, perante uma pandemia que a todos atemoriza, tem sido extraordinário o esforço de muitos, aqueles que tratam dos que estão doentes e os que procuram ajudar os mais vulneráveis, mas também aqueles que procuram criar novas formas de nos organizarmos e aqueles que procuram resistir esforçando-se por manter aberto um mercado quase fechado. O antropólogo Blumenbach caracterizou o homem como tendo nascido destinado pela natureza, mas sendo o animal mais domesticado. De facto, este confinamento tem sido um enorme desafio para o homem.

Nada ficará como dantes. Esta é uma realidade, que lentamente vai entrando no nosso dia-a-dia. Estamos talvez perante uma nova Revolução industrial, mas, neste caso, será sobretudo comportamental.

Não foi uma inovação que nos fez mudar os hábitos. Foi um vírus, foi a ameaça grave a esse bem precioso que é a saúde. Vindo lá de longe de Wuhan.

Mas, e agora? Agora como será o dia seguinte? Vão decretar o fim do estado de emergência e iremos todos para a rua festejar em cortejo? Todos sabemos que não, que o bom senso nos diz que isso será pouco avisado. Apesar da vontade de voltar a uma vida igual à que tínhamos, sabemos que o regresso à normalidade, seja lá o que isso for, tem de ser gradual.

O comércio, como a restauração, serão, evidentemente, dos mais afectados. Já está a ser, porém, no pós-Covid, também será. As restrições do número de pessoas em espaços fechados será uma realidade, que ficará connosco por algum tempo, não se sabendo ainda quanto. Como poderemos ir a um restaurante ou a um café? Como poderemos frequentar um Centro Comercial?

As alterações que iremos sofrer, para lá das questões de higiene, como o uso das máscaras, do gel desinfectante, sobretudo na entrada de serviços com atendimento ao público, são evidentes e podem vir para ficar por mais tempo do que julgamos expectável. Agora acrescento algo que também pode ser mais abrangente do que antes do Covid-19, falo do teletrabalho. Anos e anos de teorias, anos e anos de suposto trabalho à distância, para agora, em meras semanas, as organizações se adaptarem e olharem para o teletrabalho como uma realidade possível e não como algo difícil e incómodo para o normal funcionamento da actividade. E é. Não retira a necessidade de contacto, mas retira a necessidade de muitas reuniões presenciais que podem, e bem, ser substituídas por um sem fim de soluções tecnológicas de comunicação à distância. As aplicações já existiam. Nestas semanas é possível reunir e ouvir conferências sem sair do nosso sofá. É a obrigação de ficar em casa, bem sei, mas a realidade tem destas curiosidades. É possível, não é mito. Quantas reuniões existem em Lisboa ou no Porto que, em termos de presença física pessoal, são desnecessárias? Falo de todas as organizações que têm escritórios nestas duas cidades. E digo nestas duas cidades como em quaisquer outras. E quanto custam essas deslocações?

Deixo alguns exemplos que vi na televisão por estes dias. Filipe de Botton falava na ideia de fazer viagens intermináveis pelo mundo fora, quando poderia resolver, muitas das questões abordadas nas inevitáveis reuniões em pessoa, com uma simples reunião online. Carlos Moedas referiu a dificuldade que era, anteriormente, reunir o Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, sem ser de forma presencial. E ainda o meu colega de coluna no Expresso, Luís-Aguiar Conraria, que tão bem falou também, sobre a questão das férias na semana passada, disse nesta última semana, no Expresso da Meia-Noite, ao vaticinar que, mesmo deslocado, em conferências internacionais poderá, no futuro, continuar a dar aulas, mas por plataformas tecnológicas que lhe permitam vencer a distância. São exemplos, mas que demonstram bem que perante a adversidade todos temos que nos adaptar, não sendo necessário fazer esforços acrescidos ou recorrer a inovações disruptivas, pois o que existe já permitia vencer alguns dos problemas.

O mundo a seguir terá um sem número de desafios. Não podemos ficar confinados para sempre, mas podemos e devemos promover novas formas de contacto pessoal. Aliás, será que esta situação não pode levar a uma mudança radical na vida e no dia-a-dia das pessoas? Por exemplo, um regresso ao campo, pelos menos em termos de residência, poderá ser mais praticável? São muitos os desafios. Estaremos à altura? Haja vontade e engenho que conseguiremos, como os nossos egrégios avós, dobrar o cabo das Tormentas.