As vacas gordas e a austeridade

13.04.2020 às 8h28

A nossa vida pode ter sido virada do avesso. A economia posta de pantanas, mas a política arranja sempre forma de dar resposta. Ou melhor, de nos iludir. Ou, pelo menos, tentar.

Não, não vou teorizar sobre a “teoria” de que o povo deve viver na mentira, porque não faz mal a gestão da verdade, relevada apenas na medida do “digerível” pelos cidadãos. Não, não somos todos burros. Ainda. E sim, a verdade custa, mas também é a verdade que nos faz enfrentar os problemas de frente, com pleno conhecimento dos factos, pois quem oculta faz mais mal do que bem. Um dia o tapete rebenta com tanta areia que tem por debaixo.

Não precisamos de muitos especialistas para perceber que uma economia mundial parada, como está hoje, trará consequências brutais para a vida de todos nós. Não é trará. É já está a trazer. O desemprego e o layoff são consequências do Covid-19. Ponto assente e importante no campeonato do passa culpas. Portanto, parem de nos tentar iludir. Parem de dizer que não haverá austeridade. Não haverá. Já há. E já sente quem fica sem o seu ganha pão, sem o seu ordenado ou reduzido a uma porção do que era, sem a sua empresa a facturar. E são muitos e muitos os casos. Qualquer negócio com a porta fechada, com mais ou menos capacidade de operar online, tem um impacto enorme. O consumo reduziu de forma brutal. São milhares os negócios que não estão a ser feitos, que estão a ser adiados ou simplesmente cancelados.

Claro que temos hoje, em Portugal, condições financeiras diferentes, sobretudo das que existiam antes do último resgate. Sim, também por causa da austeridade lá atrás. Da receita anterior que nos permitiu corrigir alguns desequilíbrios, não todos. Todavia, foi a austeridade que permitiu que Portugal recuperasse alguma independência financeira e criasse as bases da trajectória orçamental “miraculosa” do Ministro Centeno. Mas atenção que, mesmo com alguns bons resultados, temos uma dívida bem pesada às costas e que não desapareceu, se os juros voltarem a subir ficaremos de novo submersos.

Da Europa, a fazer fé nos números do Eurogrupo, a ajuda é alguma, mas objectivamente insuficiente. 2% do PIB, mesmo que concentrado nas despesas de saúde, é curto. Aliás, basta olhar para os números do pacote aprovado nos Estados Unidos da América e compará-lo com o valor acordado na Europa. Sim, bem sei que são Estados Membros a terem que chegar a acordo, mas lá, nos EUA, em pleno ano eleitoral, Republicanos e Democratas não ficaram a olhar para questões partidárias e fizeram um acordo. Na União Europeia, a necessidade de maior rapidez, maior ousadia e mais solidariedade é fundamental. No entanto, nem tudo o que é economicamente recomendável é politicamente possível como temos visto pelas múltiplas maratonas de Eurogrupo e Conselho Europeu. Apenas os mais distraídos e ingénuos poderiam esperar por um Deus ex machina que, quase ao final do toque de meia-noite, assegurasse o acordo para um forte pacote de estímulo económico à escala comunitária ou da zona euro. Num federalismo sem federação, numa moeda única sem Orçamento de Estado, parecemos condenados a uma espécie de meio-caminho, qual limbo onde não desata o nó existencial da União Europeia.

Mas cá, como sempre neste nosso burgo, a política e a partidarite falam sempre mais alto. E por isso começou a operação de propaganda. No meio da arte para o sofismo, que ultrapassa a da negociação, que o nosso Primeiro-Ministro tem ao afirmar que a receita da austeridade não será aplicada na resposta ao impacto que este confinamento terá, surge uma frase que nega a realidade paralela que se tenta construir. O ultimato ao Bloco de Esquerda e ao PCP, a pretexto do tempo das vacas gordas. Sim, a Geringonça governou com o vento a favor, a casa arrumada e um cenário político e económico internacional tranquilo. E o que vem aí? Como sairemos da tormenta que vemos clara no horizonte? É que não dá para imaginar o PIB português a cair entre 5 a 10% e voltarmos todos alegremente a viver a vida como se de umas férias obrigatórias o confinamento se tratasse. Não há varinha mágica para o dia seguinte. Nem mesmo a abertura parcial de certos estabelecimentos fará a economia arrancar de imediato e com forte pujança. A falta de confiança e o regresso gradual à actividade será uma realidade incontornável. Sim, passaremos tempos de vacas magras. De apertos. De escolhas para distribuir a riqueza que existe. De muitos e muitos pedidos de apoio, que nunca antes precisaram. De pobreza. De pobreza que terá de ter necessariamente resposta.

Por isso, é bom que todos entendam que não é tempo de pensar em Partidos, em fórmulas de Governo ou sequer em escolhas à Esquerda ou à Direita. A austeridade está aí. Não o digo com satisfação, muito menos qualquer tipo de sentimento de eu bem avisei. A culpa não é, desta vez, de nenhum Governo, mas a realidade por mais optimistas que possamos ser, é sempre a realidade e baterá sempre a ficção.