Comida na mesa

06.04.2020 às 8h06

Os esforços para cuidar da saúde pública são enormes e globais. Todos confinados a casa. Cá e seja em que país for. Isto pressupõe que o mercado, conforme o conhecíamos, não existe, não está nas suas normais condições de funcionamento. Existem novas soluções. Sobretudo onde a via online funciona. Existe o teletrabalho, uma evidência sobretudo para certos sectores relutantes da economia, que esta crise veio demonstrar funcionar. Mas o pequeno comércio, os grandes centros comerciais, as relações sociais que no cara a cara faziam negócio desapareceram ou melhor ficaram em suspenso, aguardando o regresso de um módico de normalidade. E eram muitos sectores nesse tradicional modelo de negócio.

Todavia, mesmo o sector privado, ainda antes da quarentena, já registava perdas consideráveis. Esta situação leva a uma necessidade urgente de reforço das medidas de contenção da paragem das economias, pois o mundo está em paragem.

Sérgio Rebelo, um dos melhores economistas do mundo (sim, é português), escreveu um artigo muito interessante, (Eichenbaum, Martin S., Sergio Rebelo, and Mathias Trabandt. "The Macroeconomics of Epidemics."), onde abordava os efeitos devastadores da pandemia Covid-19 para a economia. A recessão é uma realidade inevitável, ou seja, mesmo se nada fosse feito, os impactos seriam devastadores na mesma. Um artigo que merece ser lido pelos nossos decisores políticos.

Ora, com os dados que vamos conhecendo, não podemos deixar de pensar que importa fazer chegar liquidez às pessoas. Todas. Sim, dinheiro ou melhor garantir rendimento. As contas do fim do mês começam a cair. É preciso um subsídio de emprego. Leu bem: subsídio de emprego. E isto escrito por alguém que acredita no mercado, na livre iniciativa e que acha que o Estado deve existir para apoiar e regular. Chegou o momento.

O apoio do Estado. Não, em Economia não há almoços grátis. Sim, os Estados não têm recursos infinitos. A alocação de verbas de outros investimentos ou despesas para as pessoas que têm os seus negócios parados por imposição de emergência, é uma medida de inteira justiça e de necessidade para evitar uma cava mais funda na curva da recessão. E todos, sem excepção, devem contribuir nesta fase.

Estamos em Abril. Mais do que pensar nas comemorações do 25 de Abril, devemos preparar as empresas para o dia seguinte, para o começo da redução, que será gradual, das medidas de isolamento e encerramento. Ora, se o Estado deve injectar a necessária liquidez, melhor seria com coordenação à escala da União Europeia, a dimensão do impacto orçamental assim o obriga, penso que devemos começar a pensar nos subsídios de férias e na necessidade de serem repartidos pelos vários meses do ano. Sim, voltam os pagamentos por duodécimos como medida para mitigar as contas das empresas e do Estado. Mais, importa começar a ponderar uma redução temporária do vencimento dos funcionários públicos, pois não são somente as empresas que têm reduções de actividade que o justificam. Penso ser de inteira justiça, dada a dimensão do que teremos pela frente. Todos por Todos, significa isso mesmo. Todos, sem excepção, sem ninguém ficar para trás ou ser indevidamente “poupado”.

Mais uma sugestão que deixo, muito dura é certo, com impacto significativo no nosso turismo, era a redução do número de dias de férias este ano ou o atraso no seu gozo para anos civis subsequentes. Penso que é justo para as empresas e para o Estado, contarem com os seus trabalhadores no pós-Covid-19, seja lá quando isso for, empenhados, comprometidos e disponíveis.

São medidas. Duras. Muito duras. Mas que têm um objectivo claro. Ajudar a dar liquidez para as famílias e empresas, por forma a aguentar a economia e a vida das pessoas, procurando mitigar o máximo possível a quebra da actividade económica, que já vivemos. É a comida na mesa que me preocupa. É o fim do mês de todos que deve estar bem presente nos decisores políticos, é o fundamental a acautelar. De Itália recebemos notícias de desacatos e assaltos a supermercados. Ter pão na mesa é essencial. É hora de sermos todos, todos mesmo, solidários, um por todos e todos por um.